Armando Baptista-Bastos
nasceu em Lisboa, no Bairro da Ajuda a 27 de Fevereiro de 1934. Ficou órfão de mãe muito cedo, aos seis anos de idade. O pai era tipógrafo, fundador dos jornais Diário Popular e Diário Ilustrado, terminando a sua carreira em O Século como chefe de tipografia. Grande profissional, considerado um mágico na sua arte, incute-lhe desde cedo a moral proletária do trabalho, que se reflecte na sua atitude como um operário braçal da escrita e do jornalismo, que o acompanha pela vida fora.
Realiza os estudos secundários na Escola de Artes Decorativas António Arroio, por querer ser arquitecto, e no Liceu Francês Charles Lepierre, em Lisboa, onde recebeu as marcas da cultura e da língua francófonas.
Começa por escrever com 14 anos, na secção infantil do Diário Popular, contos que já tinham um certo peso social e crítico. Entra para O Século com 19 anos, instituição conhecida no meio da imprensa por “Universidade” ou como lhe chamava Mário Zambujal “A Catedral”. Acúrcio Pereira, chefe de redacção, foi decisivo nos primeiros anos de Baptista-Bastos como jornalista, fazendo-o trabalhar em rotatividade em todas as secções do jornal.
Em 1953 foi subchefe de redacção de O Século Ilustrado, assinando uma coluna de crítica, Comentário de Cinema, e iniciando, assim, um estilo jornalístico inovador, controverso e polémico.
Participou na Revolta da Sé em 1959, com consequências posteriores na sua vida; denúncias tiveram como resultado o despedimento em O Século. Desempregado, viveu com dificuldades fazendo algumas traduções de livros e estando sob a mira da polícia política, chegou a pensar exilar-se em Paris.
Por essa altura conhece o realizador de cinema Fernando Lopes, que o acolheu em sua casa, vivendo numa semi-clandestinidade. Começa a trabalhar com ele em vários projectos, nomeadamente escrevendo os diálogos do filme Belarmino (1964), considerado um dos clássicos do Cinema Novo português. Trabalhou com Rogério Ceitil e Fernando Matos Silva nos documentários Ribatejo e Alentejo.
Em Fevereiro de 1962, vai com Fernando Lopes durante um mês para a Ericeira para fazer a adaptação do Domingo à tarde de Fernando Namora. Foi lá que escreveu a primeira versão do seu primeiro livro de ficção O Secreto Adeus, uma crítica ao jornalismo que existia na altura.
Com o pseudónimo de Manuel Trindade, trabalha durante uns meses na RTP – Rádio e Televisão de Portugal fazendo textos para noticiários e documentários de Fernando Lopes (Cidade das Sete Colinas, Os Namorados de Lisboa, Este século em que vivemos) e de Baptista Rosa (O Forcado, com imagem de Augusto Cabrita e a música Scketchs of Spain de Miles Davies). Meses mais tarde foi despedido pelo secretário nacional de informação por ter sido considerado um “adversário do regime”.
Mais uma vez no desemprego, passa sazonalmente pela redacção da Agence France Press, em Lisboa. Pouco tempo depois, entra para o República. A convite de Raul Solnado que tinha sido contratado pela TV Rio, foi para o Brasil como secretário do actor. Chegaram quando acontecia o golpe militar contra o presidente Goulart, logo de imediato envia notícias para o jornal República que são ‘censuradas’. Percorre o país-irmão onde tem a possibilidade de contactar durante oito meses com pessoas como Rubem Braga, Otto Lara Resende, Vinícius de Moraes, Péricles do Amaral (secretário do Luís Carlos Prestes na coluna Prestes) e tantos outros.
No regresso a Portugal, volta para o “República”, mas uns tempos mais tarde é convidado para integrar a Redacção do vespertino “Diário Popular”, onde irá trabalhar durante vinte e três anos (1965-1988), onde desempenha importantes funções, tendo assinado reportagens, entrevistas e crónicas e no qual deixa a sua marca "com um estilo inconfundível" – segundo Adelino Gomes. Oportunidade também para viajar e escrever sobre Portugal (continental e insular) e muitos outros países – Espanha, Canárias, França, Itália, Bélgica, Irlanda, Brasil, Uruguai, Argentina, Suíça, Luxemburgo, Grécia, Áustria, Turquia, República Democrática Alemã, República Federal da Alemanha, Checoslováquia, URSS, Marrocos, Suécia, Dinamarca, Finlândia, Nigéria, Angola, Moçambique, Cabo Verde, etc. – onde contactou e entrevistou personalidades mundialmente conhecidas, mas também o povo anónimo.
Em 1965, casa com Isaura Rodrigues Calado, que tinha conhecido 5 anos antes e que tem sido a companheira de toda a sua vida, tendo com ela os seus três filhos, Pedro, Miguel e Filipe.
Publicou o seu primeiro livro de ensaio, O Cinema na Polémica do Tempo, aos vinte e cinco anos de idade. Na senda deste livro, publica O Filme e o Realismo, em 1962, propondo análises mais amadurecidas e aprofundadas no incipiente panorama ensaístico cinematográfico português.
Dez anos mais tarde, em 1969, destaca-se As Palavras dos Outros, obra sobre jornalismo, considerada por Fernando Dacosta "uma referência obrigatória na profissão", tendo sido recomendada no I Curso de Jornalismo organizado pelo sindicato da classe. Este livro granjeou ainda o comentário de Luiz Pacheco: "Jornalismo feito literatura. Isto é, ascendendo ao plano da literatura: na contenção irónica, na sua capacidade de denúncia e intervenção, obrigando-nos à exploração psicológica dos tipos, no humor dos circunlóquios, principalmente no poder de síntese". Em 1973 editou o disco O Sinal do Tempo (crónicas) com música de António Victorino de Almeida (Edições Zip).
No pós-25 de Abril (dia que o marcou profundamente), depois de sair do Diário Popular, trabalha durante seis meses para João Soares Louro, no jornal Europeu. Segue-se O Diário, onde passa uma experiência única de cinco meses.
Aos 56 anos, vê-se novamente desempregado, com sete pessoas a seu cargo, vira-se novamente para a tradução, e para a escrita de discursos de empresários e políticos.
Ao longo da sua actividade jornalística pertenceu, também, aos quadros redactoriais de outros jornais e revistas: Almanaque, Seara Nova, Gazeta Musical e de Todas as Artes, Época e Sábado. Como cronista colaborou com o Jornal de Notícias, A Bola, o Tempo Livre e, como crítico, com o Jornal de Letras, Artes e Ideias, o Expresso, o Jornal do Fundão e o Correio do Minho, numa actividade jornalística sempre complementar da literária.
Fundou, ainda nos anos 80, o semanário O Ponto, periódico onde realizou uma série de oitenta e duas entrevistas, entre outros textos e reportagens, posteriormente editadas no livro O Homem em Ponto.
Colaborou na rádio, nomeadamente na Antena 1 e na Rádio Comercial, com crónicas suas que lia aos microfones. Foi o primeiro comentador de “Crónicas de Escárnio e Maldizer”, da TSF – Rádio Jornal. Presença frequente em debates televisivos, é convidado por Emídio Rangel e pela SIC a apresentar o programa Conversas Secretas, entre Novembro de 1996 e Janeiro de 1998. Em 2001, conduz na SIC-Notícias um programa de entrevistas intitulado Cara-a-Cara.
A convite do jornal Público, no qual era cronista, realizou uma série de dezasseis entrevistas sob a designação “Onde é que você estava no 25 de Abril?”, posteriormente publicadas em CD-ROM. Actualmente é colunista do Diário de Notícias e do Jornal de Negócios.
Foi ainda docente na Universidade Independente (2003-2004), onde leccionou a disciplina de Língua e Cultura Portuguesas.
Escritor pausado, com uma exigência de rigor, os seus livros estão traduzidos em várias línguas – em checo, búlgaro, russo, alemão, castelhano e francês – tendo sido igualmente objecto de estudos e teses de licenciatura em universidades portuguesas e estrangeiras e à sua obra – jornalística e literária – já foram atribuídos numerosos e prestigiados prémios.
Os livros de Baptista-Bastos (romances, crónicas, entrevistas, reportagens, ensaio cinematográfico) encontram-se, em forma de antologia, em inúmeros volumes de ensino da Língua Portuguesa.
A sua história de vida e o seu percurso profissional, jornalístico e literário, levaram-no a cruzar-se e a conhecer alguns dos maiores vultos da cultura portuguesa – “Aquilino, o Redol, o Carlos de Oliveira, o Joaquim Namorado, o Manuel da Fonseca, o Zé Gomes Ferreira, o João Abel Manta… o Manuel Taínha, o Júlio Pomar, a Maria Keil, o Jorge de Sena, o Lopes-Graça, o Cochofel. Tantos, tantos!” – que o ajudaram a definir-se como homem.
Recebeu inúmeros prémios, dos quais se referem os seguintes: Prémio Feira do Livro (1966), Prémio Artur Portela / Casa da Imprensa (1978), Prémio O Melhor Jornalista do Ano (1980 e 1983), Prémio Nacional de Reportagem / Prémio Gazeta (1985) atribuído pelo Clube de Jornalistas, Prémio Casa da Imprensa (1986), Prémio Pen Clube (1987) e Prémio Literário Município de Lisboa (Prémio de Prosa de Ficção) (1987) para o livro “A Colina de Cristal”, Prémio Porto de Lisboa de 1988, Prémio da Crítica do Centro Português da Associação Internacional de Críticos Literários (2002) atribuído, em 2003, ao romance “No Interior da Tua Ausência” e como consagração de uma obra literária, Grande Prémio da Crónica da Associação Portuguesa de Escritores, atribuído em 2003, ao livro “Lisboa Contada pelos Dedos”, publicado em 2001, Prémio Gazeta de Mérito (2004) atribuído por unanimidade pelo Clube de Jornalistas, Prémio de Crónica João Carreira Bom/Sociedade da Língua Portuguesa (2005) e Prémio Alberto Pimentel do Clube Literário do Porto, pelo conjunto da obra (2006).